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BAIXAR CONTO BOLA DE SEBO


BOLA DE SEBO E OUTROS CONTOS GUY DE MAUPASSANT Tradução: Mário Quintana, Casimiro Fernandes, Justino Martins. EDITORA. iranyszekelyfold.info .. seu canto, trabalhava duro, e em voz baixa incentivou a mulher a fazer o. Compre o livro «Bola De Sebo» de Guy de Maupassant em iranyszekelyfold.info 10% de desconto em CARTÃO.

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DE BOLA BAIXAR SEBO CONTO

Adaptadores, Cabos e Fontes. Loiseau continuava: E compreensvel. Os olhos da bela Sra. O cair da noite - Isaac Asimov. Porque eu non querro. O conde se aproximou do albergueiro e disse baixinho: Feito? A proposta foi aceita. No so mais difceis de estrangular do que qualquer outro! Tinha-se fome de novo; foi pedido o jantar. A Sra. Certamente que essa rogatria no apresenta nenhum perigo; sem dvida por causa de alguma formalidade esquecida. Falavam baixo, e em seguida estacaram. O champanhe tem desses efeitos; dizem que perturba o sono. Mas o conde resolveu a questo.

iranyszekelyfold.info .. seu canto, trabalhava duro, e em voz baixa incentivou a mulher a fazer o. Compre o livro «Bola De Sebo» de Guy de Maupassant em iranyszekelyfold.info 10% de desconto em CARTÃO. A história de Bola de Sebo se passa na França, no período final da guerra contra a Bola de Sebo e outros contos Compare preços e economize dinheiro. Compre BOLA DE SEBO E OUTROS CONTOS, do(a) HEDRA - UM LIVRO. Confira as melhores ofertas de Livros, Games, TVs, Smartphones e muito mais. CONTO BOLA DE SEBO BAIXAR - Revistas Importadas Voltar Voltar. Nenhuma é ruim ou regular. Adesivos e Capas para Celulares. Mesa para Dj Voltar Voltar.

Carr Lamadon, muito mais jovem que o marido, permanecia a consolao dos oficiais de boa famlia enviados guarnio de Rouen. Sentada diante do esposo, toda pequenina, toda engraadinha, bonitinha, enovelada em suas peles, ela observava com olhar consternado o lamentvel interior do veculo.

Seus vizinhos de banco, o conde e a condessa Hubert de Brville, portavam um dos nomes mais antigos e mais nobres da Normandia. O conde, velho fidalgo semelhana natural com o rei Henri IV, que, segundo uma lenda gloriosa para a famlia, engravidara uma dama de Brville, cujo marido, por causa disso, tornarase conde e governador de provncia.

Colega do Sr. Carr Lamadon no conselho geral, o conde Hubert representava o partido orleanista no departamento. A histria de seu casamento com a filha de um pequeno armador de Nantes resultara sempre um tanto misteriosa.

Mas como a condessa tinha um aspecto muito distinto, recebia melhor do que ningum, e passeava at por. A fortuna dos Brville, toda em imveis, atingia, diziam, quinhentas mil libras de renda. Aquelas seis pessoas compunham o fundo do veculo, o lado da sociedade endinheirada, serena e forte, gente honesta, com autoridade, que tem Religio e Princpios.

Por um estranho acaso todas as mulheres encontravam-se no mesmo banco; e a condessa tinha ainda como vizinhas duas freiras que debulhavam longos rosrios murmurando pai nossos e ave marias. Uma era velha, com a face estragada pela varola como se tivesse recebido de bem perto uma metralha de chumbo em pleno rosto. A outra, muito frgil, tinha uma bela e combalida cabea, e um peito de tuberculosa carcomido por essa f devastadora que faz os mrtires e os iluminados.

O homem, bastante conhecido, era Cornudet, o democra, o terror das gentes de bem. Havia vinte anos ele ensopava sua barba ruiva nos chopes de todos os cafs democratas. Com os irmos e amigos, liquidara uma bela fortuna, herana do pai, antigo confeiteiro; e esperava impacientemente pela Repblica para obter enfim o lugar merecido por tantas despesas revolucionrias.

No Quatro de Setembro, vtima de uma brincadeira talvez, ele se imaginara nomeado prefeito, mas quando quis assumir as funes os contnuos, que acabaram como os nicos donos do lugar, negaram-se a reconhec-lo, e ele foi obrigado a se retirar.

De resto, muito bom rapaz, inofensivo e prestimoso, tinha se dedicado com um ardor incomparvel organizao da defesa. Mandara cavar buracos nos campos, derrubar todos os arbustos das florestas vizinhas, semeara armadilhas por todas as estradas e, diante da aproximao do inimigo e satisfeito com seus preparativos, recuara prontamente para a cidade.

Agora julgava-se mais til no Havre, onde novas trincheiras iam ser necessrias. A mulher, uma dessas a quem chamam de libertina, era clebre por sua corpulncia precoce, que lhe valera o apelido de Bola de Sebo. Pequena, toda rechonchuda, gorducha mesmo, com dedos inchados e estrangulados nas falanges, semelhantes a rstias de salsichas curtas, com uma pele luzente e esticada, um pescoo enorme que transbordava o vestido, ela continuava, no entanto, apetitosa e solicitada, de tanto que seu frescor dava prazer vista.

Seu rosto era uma maa vermelha, um boto de penia prestes a florescer, e ali se abriam, em cima, uns olhos negros magnficos, cobertos por grandes clios espessos que os mergulhavam na sombra; embaixo, uma boca encantadora, estreita, mida para o beijo, recheada com dentinhos brilhantes e microscpios.

Alm disso, ela era, diziam, cheia de qualidades inestimveis. Assim que foi reconhecida, correram cochichos entre as mulheres direitas, e as expresses prostituta e vergonha pblica foram sussurradas to alto que ela levantou a cabea. Ento passeou por sobre os vizinhos um olhar to provocador e intrpido que imediatamente um grande silncio se instalou, e todo mundo baixou os olhos, exceo de Loiseau, que a espreitava com ar animado.

Mas em seguida a conversa foi restabelecida entre aquelas trs mulheres que a presena da outra fizera subitamente amigas, quase ntimas. Elas deviam formar, parecia-lhes, como que uma liga de suas dignidades de esposas diante daquela vendida sem vergonha; porque o amor legal sempre desdenha seu colega libertino.

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Os trs homens tambm, unidos por um instinto conservador em face de Cornuder, falavam de dinheiro com certo tom de desdm pelos pobres. O conde Hubert contava dos danos que sofrera por causa dos prussianos, das perdas que resultariam do gado roubado e das colheitas arruinadas, e falava com uma segurana de grande senhor, dez vezes milionrio, que aquelas devastaes afetariam apenas um ano.

Carr Lamadon, bastante experiente na industria algodoeira, tivera o cuidado de enviar seiscentos mil francos para a Inglaterra, uma reserva que guardava para qualquer eventualidade. Quando a Luiseau, arranjara-se para vender Intendncia francesa todos os vinhos ordinrios que lhe restavam no estoque, de maneira que o Estado lhe devia uma quantia formidvel, na qual ele esperava pr as mos quando.

E todos os trs trocavam olhares rpidos e amigveis. Embora de posies sociais diferentes, sentiam-se irmanados pelo dinheiro, da grande maonaria dos que possuem que fazem retinir o ouro quando metem a mo no bolso do colete. O carro seguia to lentamente que s dez da manh ainda no haviam percorrido quatro lguas. Os homens desceram trs vezes para subir encostas a p. Comeavam a inquietar-se, pois deviam almoar em Ttes e j no tinham esperana de l chegar antes da noite.

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Cada qual espreitava para enxergar alguma taberna beira da estrada, quando a diligncia se afundou num monte de neve, e foram necessrias duas horas para desatol-la. A fome aumentava, confundia os espritos, e nenhuma baica, nenhum boteco aparecia o avano dos prussianos e a passagem das tropas francesas esfomeadas tinham espantado os negcios. Os senhores correram s granjas da beira do caminho em busca de provises, mas nem mesmo po encontraram, pois o campons, desconfiado, escondia suas reservas com medo de ser pilhado pelos soldados que, nada tendo para pr na boca, tomavam fora o que encontravam pela frente.

Perto de uma da tarde, Loiseau anunciou que, decididamente, tinha um belo dum buraco no estmago. Todo mundo sofria como ele havia muito tempo, e a violenta necessidade de comer, sempre crescente, liquidara a conversa. De vez em quando algum bocejava; quase imediatamente outro o imitava, e cada qual ao seu turno, segundo o carter, a educao e a posio social, abria a boca com estardalhao ou discretamente, levando rpido a mo quela cova escancarada de onde saa um vapor.

Vrias vezes Bola de Sebo se inclinou como se procurasse alguma coisa embaixo da saia. Hesitava um segundo, olhava para os vizinhos, depois se punha outra vez direita, tranquilamente. Os rostos estavam plidos e crispados. Loiseau disse que pagaria mil francos por um pedao de presunto.

Sua mulher fez um gesto como para protestar, depois e acalmou. No podia ouvir falar em dinheiro desperdiado e no suportava nem mesmo as brincadeiras a respeito do tema.

A verdade que no me sinto bem, disse o conde, como que no pensei em trazer mantimentos?. Todos se faziam a mesma recriminao.

No entanto Cornudet tinha um cantil cheio de rum; ofereceu: recusaram friamente. Apenas Loiseau aceitou um golezinho e, devolvendo o cantil, agradeceu: Tem-se que reconhecer que isso bom, esquenta e engana o estmago. O lcool deixou-o bem humorado, e props que fizessem como no navio da cano: comer o mais gordo dos passageiros.

Aquela aluso indireta a Bola de Sebo chocou os bem educados. No lhe responderam; apenas Cornudet sorriu. As duas freiras tinham parado de desfiar seus rosrios e, com as mos enfiadas nas mangas, mantinham-se imveis, baixando obstinadamente os olhos, sem dvida ofertando aos cus o sofrimento que lhes era enviado.

Enfim, s trs horas, quando se encontravam no meio de uma planura interminvel, sem uma s aldeia vista, Bola de Sebo se abaixou de repente e puxou de baixo do banco um grande cesto coberto por um guardanapo branco.

Tirou primeiro um pratinho de faiana, uma fina taa de prata, depois uma grande terrina com dois frangos trinchados e conservados na prpria gordura; e percebia-se ainda uma poro de coisas boas enroladas dentro daquele cesto: pats, frutas, guloseimas, alimentos preparados para uma viagem de trs dias, para no ter que recorrer s cozinhas dos albergues. Quatro gargalos de garrafas despontavam entre os embrulhos de comida. Ela pegou uma asa de frango e, delicadamente, ps-se a com-la com um desses pezinhos que na Normandia a gente chama Regence.

Todos os olhares se dirigiam para ela. Em seguida o cheiro se espalhou, dilatando as narinas, fazendo vir s bocas uma saliva abundante, com uma contrao dolorosa da mandbula abaixo das orelhas. O desprezo das senhoras por aquela moa tornava-se feroz, como um desejo de mat-la ou de jog-la sob as rodas do carro, na neve, ela, a sua taa, seu cesto e sua comida. Mas Loiseau devorava com olhos a terrina de frango. Ele disse: Que beleza! A madame foi mais precavida do que ns. H pessoas que sempre pensam em tudo.

Ela ergueu a cabea para ele: Se o senhor quiser Ele saudou : Quer saber uma coisa, francamente? No recuso. No agento mais. Na guerra se faz como na guerra, no madame?. E lanando um olhar em torno, acrescentou: em momentos como esse uma maravilha encontrar pessoas que nos faam uma gentileza. Ele trazia um jornal, que estendeu para no manchar a cala, e, com a ponta da faca que sempre levava no bolso, retirou uma coxa bem reluzente do interior da gelia de gordura, cortou-a com os dentes e depois a mastigou com uma satisfao to evidente que cortou-a com os dentes e depois a mastigou com uma satisfao to evidente que um grande suspiro de angstia fez-se ouvir dentro do veculo.

Bola de Sebo, com voz humilde e delicada, convidou as freiras para dividir o lanche com ela. As duas aceitaram de imediato, e, sem erguer os olhos, puseram-se a comer muito ligeiro, aps terem balbuciado agradecimentos. Cornudet tambm no recusou as ofertas da vizinha, e formaram, com as religiosas, uma espcie de mesa estendendo jornais no colo.

As bocas se abriam e se fechavam sem parar, engoliam, mastigavam, devoravam ferozmente. Loiseau, no seu canto, trabalhava duro, e em voz baixa incentivou a mulher a fazer o mesmo. Ela resistiu bastante tempo, mas aps uma crispao que lhe percorreu as entranhas, cedeu. Ento o marido, arredondando a frase, perguntou se sua encantadora companheira lhe permitia oferecer um pedacinho Sra. Mas claro, certamente, senhor, respondeu Bola de Sebo, com um sorriso amvel, estendendo-lhe a terrina.

Houve um embarao quando abriram a primeira garrafa de Bordeaux: havia apenas uma taa. Passaram-na de mo em mo, depois de enxugada. Apenas Cornudet, sem dvida para fazer um galanteio, pousou os lbios no mesmo lugar ainda mido dos lbios da vizinha. Ento, cercados por gente que alimentava, sufocados pelas emanaes das comidas, o conde e a condessa de Brville, assim como o Sr. Carr Lamadon sofriam este odioso suplcio que conservou o nome de Tntalo. De repente, a jovem senhora do empresrio soltou um suspiro que fez com que todos se voltassem para ela; estava to branca quanto neve l fora; seus olhos se fecharam, a cabea pendeu; tinha desmaiado.

O marido, desorientado, pedia socorro a todo mundo. Todos se descontrolavam, quando a mais velha das freiras, segurando a cabea da doente, ps entre seus lbios a taa de Bola de Sebo e fez com que ela bebesse algumas gotas de vinho.

A bela senhora se mexeu, abriu os olhos, sorriu, e com uma voz fraca disse que se sentia muito bem agora. Mas, para que aquilo no se repetisse, a religiosa obrigou-a a beber um copo cheio do Bordeaux, e acrescentou: fome, s isso. Ento bola de Sebo, vermelha e confusa, olhando para os quatro passageiros que continuavam em jejum, balbuciou: Meu Deus, se eu pudesse oferecer a esses cavalheiros e a essas damas Calou-se, temendo um ultraje.

Loiseau tomou a palavra: Eh caramba, numa situao dessas todo mundo irmo e deve se ajudar. Vamos, madames, nada de cerimnias: aceitem, que diabo! Sabemos se vamos ao menos encontrar uma casa para passar a noite? Na marcha em que vamos, no chegaremos a Ttes antes do meio-dia de amanh. Vacilavam, ningum ousando assumir a responsabilidade do sim. Mas o conde resolveu a questo. Virou-se para aquela moa gorda e intimidada e, assumindo seu grande ar de fidalgo, disse: Ns aceitamos reconhecidos, madame.

Apenas o primeiro passo era difcil. Um vez transposto o Rubicon, as pessoas se soltaram. O cesto foi esvaziado. E ainda havia sobrado um pat de foie gras, um pat de calhandra, um pedao de lngua de boi defumada, peras de Crassane, um naco de pont-l vque, bolinhos e um pote de pepinos e cebolas no vinagre: Bola de Sebo, como todas as mulheres, adorava as conservas.

Mas no se podia comer as provises daquela moa sem lhe dirigir a palavra. Ento conversaram, inicialmente com reserva, depois, como ela se portava muito bem, soltaram-se mais. As Sras. De Brville e carr Lamadon, que possuam muito savoir vivre,mostraram-se afveis e delicadas. Sobretudo a condessa demonstrou essa condescendncia amvel das damas muito nobres, que nenhum contato capaz de manchar, e foi adorvel.

Mas a corpulenta Sra. Loiseau, que tinha uma alma de sargento, permaneceu azeda, falando pouco e comendo muito. Conversaram sobre a guerra, naturalmente. Relataram feitos horrveis dos prussianos, lances de bravura dos franceses, e todas aquelas pessoas que ali estavam a fugir, renderam tributo coragem dos outros.

Rapidamente comearam as histrias pessoais, e Bola de Sebo contou com verdadeira emoo, com aquele calor nas palavras que por vezes as moas desse tipo tm para exprimir seus arroubos naturais como havia deixado Rouen: Primeiro pensei que poderia ficar, disse.

Tinha uma casa cheia de mantimentos, e preferia alimentar alguns soldados a emigrar para no sei onde. Mas quando vi os tais prussianos, aquilo foi mais forte do que eu! Me ferveu o sangue, e chorei de vergonha o dia inteiro.

Se eu fosse homem! Via-os da minha janela, aqueles grandes porcos com seus capacetes pontudos, e minha empregada me segurava as mos para me impedir de atirar-lhes os mveis por cima. Depois vieram uns para se alojar em minha casa; ento atire-me garganta do primeiro. No so mais difceis de estrangular do que qualquer outro!

E teria acabado com aquele se no tivessem me puxado pelo cabelo. Fui obrigada a me esconder depois disso. Por fim, quando encontrei uma oportunidade, fui embora, e aqui estou. Felicitaram-na bastante. Ela crescia na estima de seus companheiros de viagem, que no tinham se mostrado to valentes; e Cornudet, escutando-a, conservava um sorriso aprovador e benevolente de apstolo da mesma maneira um padre escuta um devoto louvar o nome de Deus, pois os democratas barbudos tm o monoplio do patriotismo como homens de batina tm o da religio.

Depois ele falou em tom doutrinrio, com a nfase aprendida nas declaraes coladas nas paredes todos os dias, e terminou com um pequeno trecho de eloqncia onde esfolava magistralmente aquele crpula do Badinguet. Mas imediatamente Bola de Sebo se ofendeu, pois era bonapartista. Ficou vermelha como um pimento e, gaguejando indignada: Queria ter visto vocs no lugar dele, vocs todos.

Isso que teria sido bonito, ah sim! Vocs que traram esse homem! Se fssemos governados por vagabundos como vocs, a nica coisa a fazer seria ir embora da Frana!. Cornudet, impassvel, conservava um sorriso desdenhoso e superior, mas percebia-se que os palavres no tardariam, quando o conde se interps e acalmou, no sem custo, a moa exasperada, proclamando com autoridade que todas as opinies sinceras eram respeitveis.

Entretanto a condessa e a empresria, que traziam na alma o dio irracional das pessoas de bem pelas coisas da Repblica e aquela instintiva ternura que todas as mulheres alimentam pelos governos despticos e de penacho, sentiam-se, mesmo a contragosto, atradas por aquela prostituta cheia de dignidade, cujos sentimentos se pareciam tanto com os delas. O cesto estava vazio. Entre dez, tinham-no esgotado sem dificuldade, lamentando que no fosse maior. A conversa continuou por mais algum tempo, um pouco esfriada, no entanto, aps terem comido.

A noite caa, a escurido pouco a pouco tornou-se profunda, e o frio, mais sensvel durante a digesto, causava arrepios em Bola de Sebo, apesar de sua gordura. Ento a Sra. A outra aceitou imediatamente, pois sentia os ps gelados. Carr Lamadon e Loiseau deram os seus s duas religiosas.

O cocheiro acendera as lanternas. Elas iluminavam com um claro intenso uma nuvem de vapor acima da garupa suada dos cavalos, e dos dois lados da estrada a neve parecia escoar-se sob o reflexo mvel das luzes. No se distinguia mais nada no interior do veculo; de repente houve um movimento entre Bola de Sebo e Cornudet, e Loiseau, cujo olho perscrutava a sombra, julgou ver o homem de longa barba se afastar prontamente, como se tivesse recebido um belo de um golpe a seco.

Pequenos pontos luminosos apareceram frente, na estrada. Era Ttes. Tinham rodado durante onze horas, o que, com as duas horas de repouso feitas em quatro tempos para que os cavalos pudessem respirar e comer um pouco de aveia, perfaziam catorze. Entraram na vila e pararam diante do Hotel Du. A portinhola se abriu! Um rudo bastante conhecido fez tremer todos os viajantes; eram as batidas de um sabre contra o cho. Em seguida a voz de um alemo gritou alguma coisa.

Embora a diligncia estivesse parada, ningum descia como se esperassem um massacre sada. Ento o condutor apareceu, carregando na mo uma das lanternas, que subitamente iluminou at o fundo do carro as duas filas de rostos assustados, cujas bocas estavam abertas e os olhos arregalados de surpresa e pavor.

Em plena luz, ao lado do cocheiro, estava um oficial alemo: um rapaz alto, excessivamente magro e louro, apertado em seu uniforme como uma jovem em seu corpete, e com o bon chato e oleado posto de travs, o que lhe dava ares de um porteiro de hotel ingls. Seu bigode desmesurado, com pelos compridos e retos, que se adelgaava indefinidamente dos dois lados e terminava em um s fio louro, to fino que no se via o final, parecia pesar nos cantos da boca e repuxar a bochecha, imprimindo aos lbios uma prega descada.

Num Francs de alsaciano, convidou os passageiros a sair, dizendo num tom spero: Fces querrem tescer, tamas e cafalheirros?. As duas freiras obedeceram primeiro, com uma docilidade de santas mulheres habituadas a todas as submisses. O conde e a condessa apareceram logo depois, seguidos do empresrio e sua mulher, depois Loiseau empurrando frente sua grande cara metade.

Este, pondo o p no cho, disse ao oficial: Boa noite, senhor, muito mais por prudncia do que por polidez. O outro, insolente como os todo- poderosos, olhou-o sem responder: Bola de Sebo e Cornudet, embora prximos portinhola, desceram por ltimo, graves e altivos diante do inimigo.

A gorda menina tratava de se controlar e de se mostrar calma; o democrata, com uma espcie de mo trgica e um pouco trmula, torturava sua longa barba arruivada. Queriam manter a dignidade, entendendo que nesses tipos de encontros cada qual representa um pouco o seu pas; e ambos revoltados pela docilidade de seus companheiros, ela, de seu lado, tratava de se mostrar mais distinta do que suas vizinhas, as mulheres direitas, enquanto ele, sabendo bem que devia dar o exemplo, continuava em todas as suas atitudes a misso de resistncia comeada com o bloqueio das estradas.

Entraram na vasta cozinha do albergue, e o alemo, aps ter feito apresentaram-lhe a autorizao para viajar assinada pelo general em chefe e onde estavam mencionados os nomes, as caractersticas fsicas e a profisso de cada viajante, examinou demoradamente todo mundo, comparando as pessoas com as informaes escritas. Depois disse brusco: Est pom, e desapareceu. Ento se pode respirar. Tinha-se fome de novo; foi pedido o jantar.

Uma meia hora era necessria para apront-lo, e, enquanto dois serventes pareciam tratar disso, foram ver os quartos. Achavam-se todos dispostos num longo corredor que terminava numa porta envidraada e marcada com o nmero falante. Enfim iam sentar mesa quando o dono do albergue surgiu na sala. Era um antigo comerciante de cavalos, um gordo asmtico que estava sempre com o peito assoviando, pigarreando, com uma tosse rouca e catarrenta. Seu pai transmitira-lhe o nome de Follenvie. Ele perguntou:.

Falar comigo? Sim, se voc mesmo a senhorita lisabeth Rousset. Ela ficou confusa, refletiu um segundo, depois disse claramente:. Houve um alvoroo em torno dela; cada qual discutia e procurava entender a causa daquela ordem.

O conde se aproximou:. A senhora est errada, madame, pois sua recusa pode trazer dificuldades considerveis, no somente para a senhora mas inclusive para todos os seus acompanhantes.

No se deve jamais resistir s pessoas que so mais fortes. Certamente que essa rogatria no apresenta nenhum perigo; sem dvida por causa de alguma formalidade esquecida. Todo mundo o apoiou, fizeram splicas a ela, instigaram-lhe, pregaram-lhe um sermo e terminaram por convenc-la, pois todos temiam as complicaes que uma deciso impensada poderia resultar.

Ela disse, enfim:. E ns lhe agradecemos. Esperaram-na para sentarem mesa. Cada qual se lamentava por no ter sido escolhido no lugar daquela menina violenta e irascvel, e preparava mentalmente alguma resposta servil para o caso de ser chamado.

Mas ao cabo de dez minutos ela reapareceu, ofegante, vermelha, exasperada a ponto de sufocar. Balbuciava: Ah! Que canalha!

Que canalha!. Todos acorreram para saber, mas ela no disse nada; e como o conde insistia, respondeu com muita dignidade: No, isso no lhe diz respeito. No posso falar. Sentaram-se ento em torno de uma grande sopeira que exalava um perfume de couve.

Apesar daquele susto, o jantar foi divertido. A sidra era boa, o casal Loiseau e as freiras beberam dela, por economia. Os outros pediram vinho. Cornudet pediu cerveja. Ele tinha um jeito especial de abrir a garrafa, de fazer espuma ao servir, de examin-la inclinando o copo, que em seguida erguia contra a luz para avaliar bem a cor.

Quando bebia, sua longa barba que conservava o mesmo matiz da bebida adorada parecia estremecer de ternura; seus olhos tornavam-se vesgos no esforo de no perder de vista o chope, e naquele instante ele dava a impresso de estar cumprindo a nica funo para a qual tinha nascido. Dir-seia que criava em seu esprito uma aproximao e uma espcie de afinidade entre as duas grandes paixes que ocupavam toda a sua vida; a Cerveja e a Revoluo; e certamente no podia degustar uma sem pensar na outra.

Follenvie jantavam bem na ponta da mesa. O homem, arquejando como uma locomotiva estropiada, tinha demasiada dificuldade no peito para poder falar enquanto comia; mas a mulher no se calava nunca. Contou todas as suas impresses da chegada dos prussianos, o que faziam, o que diziam, execrando-lhes, primeiro porque custavam-lhe dinheiro, e depois porque tinha dois filhos no Exrcito. Dirigia-se principalmente condessa, lisonjeada por conversar com uma dama daquele naipe.

Depois baixava a voz para falar as coisas mais delicadas, e de vez em quando seu marido a interrompia: Seria melhor se se calasse, madame Follenvie. Mas ela no dava a mnima importncia e continuava:.

E no v pensar que so limpos! Ah, no! Fazem porcaria por todos os cantos, desculpe o termo, mas isso mesmo. E se a senhora os visse fazer o exerccio deles, durante horas e horas, todos os dias; ficam todos ali, num campo: e anda para frente, e anda para trs, e vira para l, e vira para c. Se pelo menos cultivassem a terra ou se trabalhassem nas estradas l do pas deles!

Mas no, madame, essa soldadesca a, isso ningum aproveita! E o pobre do povo ainda tem que aliment-los. Para qu? Para que no apreendam outra coisa? S sabem massacrar! No passo de uma velha sem educao, concordo, mas quando vejo como estragam a sade a patear da manh noite, penso c comigo: Quando h gente que faz tanta descoberta que pode ser til, tem que ter esses outros que se esforam tanto para ser maus!

Francamente, no uma abominao isso de matar as pessoas? Que seja prussiano, ou ingls, ou ento polons, ou Francs? Se a gente se vinga de algum que nos prejudicou, ruim, pois nos condenam; mas quando exterminam nosso filhos a tiro de fuzil como se fossem perdizes, a ento bom?

Sim, pois do-se condecoraes ao que mais liquida! No, veja bem, madame, nunca vou entender isso! Cornudet levantou a voz:. A guerra uma barbrie quando se ataca um vizinho pacfico; um dever sagrado quando se defende a ptria. A velha mulher baixou a cabea:. Sim, quando a gente se defende, outra coisa; mas, antes, no seria melhor matar todos os reis que fazem isso por puro prazer?

O olhar de Cornudet se inflamou:. Bravo, cidad! Carr Lamadon refletia profundamente. Embora fosse fantico pelos ilustres capites, o bom senso daquela camponesa o fazia pensar na fartura que traria a um pas tamanha quantidade de braos desocupados, e conseqentemente ruinosos, se toda aquela fora que se mantinha improdutiva fosse empregada nas grandes obras industriais que precisaro de sculos para ser feitas.

Mas Loiseau, deixando o seu lugar, foi conversar em voz baixa com o albergueiro. O gordo ria, tossia, cuspia; a enorme barriga pulava de alegria ao ouviras piadas do vizinho, e comprou-lhe seis barricas de Bordeaux para a primavera, quando os prussianos j teriam partido.

Mal terminada a ceia, como estavam mortos de cansao, foram se deitar. No entanto Loiseau, que tinha prestado ateno s coisas, deixou a esposa na cama e colou, ora ouvido, ora o olho, no buraco da fechadura, tratando de descobrir o que ele chamava de os mistrios do corredor.

Ao cabo de mais ou menos uma hora, ouviu uma espcie de frufru, olhou depressa e percebeu Bola de Sebo, que parecia ainda mais cheia sob um penhoar de casimira azul bordado com rendas brancas.

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Trazia um castial na mo e se dirigia ao nmero redondo do fundo do corredor. Mas uma porta ao lado se entreabriu, e quando ela voltou, aps alguns minutos. Cornudet, de suspensrios, a seguia. Falavam baixo, e em seguida estacaram. Bola de Sebo parecia proteger a entrada de seu quarto com energia. Loiseau, infelizmente, no escutava as palavras, mas no fim, como levantavam a voz, ele pde pescar algumas.

Cornudet insistia com veemncia. No, meu caro, tem momentos em que no se pode fazer essas coisas; e alm disso, aqui, seria uma vergonha. Ele no entendia, sem dvida, e perguntou o porqu. Ento ela se exaltou, elevando ainda mais o tom:.

Por qu? Voc no entende por qu? Quando h prussianos por toda a casa, talvez at no quarto ao lado?

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Ele se calou. Aquele pudor patritico de marafona que no se deixava acariciar perto do inimigo deve ter despertado em seu corao a dignidade enfraquecida, pois, depois de lhe ter dado apenas um beijo, voltou para o quarto na ponta dos ps. Loiseau, bem aceso, deixou a fechadura, deu salto batendo os dois calcanhares no ar, enfiou sua touca, ergueu o cobertor sob o qual jazia a dura carcaa de sua companheira, que ele acordou com um beijo, murmurando: Voc me ama.

Ento a casa inteira se tornou silenciosa. Mas em seguida, em algum lugar indeterminado que podia ser tanto a cave quanto o sto, ergueu-se um ronco poderoso, regular, montono, um rudo surdo e prolongado, com estremecimentos de caldeira sob presso. Follenvie dormia. Como haviam decidido que partiriam no dia seguinte s oito horas, todo mundo se encontrou na cozinha; mas o carro, cujo toldo tinha uma camada de neve, erguia-se solitrio no meio do ptio, sem cavalos e sem condutor.

Procuraram em vo este ultimo nas estrebarias, nas forragens, nas cocheiras. Ento os homens se decidiram por fazer uma busca nas redondezas e saram. Viram-se na praa, com a igreja ao fundo e, dos dois lados, uma srie de casa baixas onde se percebiam soldados prussianos. O primeiro que enxergaram descascava batatas.

O segundo, mais afastado, lavava o salo do barbeiro. Um outro, barbudo at os olhos, beijava um fedelho que chorava e o embalava no colo, tentando acalm-lo; e as gordas camponesas cujos homens estavam no exrcito da guerra indicavam por meio de sinais aos vencedores obedientes o trabalho que era preciso fazer: cortar lenha, engrossar a sopa, moer o caf; um deles at lavava a roupa de sua hospedeira, uma vov aleijada.

Surpreso, o conde interrogou o sacristo que saa do presbitrio.

O velho rato de igreja respondeu: Oh! Esses a no so maus; no so prussianos, pelo que se diz. So de mais longe, no sei muito bem de onde; e todos deixaram mulher e filhos em seus pas; essa guerra no nem um pouco engraada para eles! Tenho certeza que l tambm o pessoal se queixa; e isso vai trazer uma bela duma misria tanto para eles quanto para ns. Aqui, ainda no somos muito desgraados, por enquanto. Porque eles no fazem mal nenhum e trabalham como se estivessem em suas casas. Mêmnon ou a sabedoria humana - Voltaire O camundongo - Saki O guarda-chuva - Yasunari Kawabata O elixir do reverendo padre Gaucher - Alphonse Daudet O fantasma inexperiente - H.

Wells Judas Iscariotes - Leonid Andreiév A ponte Thor - Arthur Conan Doyle O homem que corrompeu Hadleyburg - Mark Twain A cruzada das crianças - Marcel Schwob Aventuras de uma negrinha que procurava Deus - George Bernard Shawn O possível Baldi - Juan Carlos Onetti O homem que sabia javanês - Lima Barreto Conto azul - Marguerite Yourcenar A tortura da esperança - Villiers de L'isle-Adam O leproso da cidade de Aosta - Xavier de Maistre O sinaleiro - Charles Dickens O tiro - Aleksander Pushkin A pedra que cresce - Albert Camus O marido padre - Marqûes de Sade O diabo e o relojoeiro - Daniel Defoe Nas montanhas da loucura - H.

Lovecraft O tenente Gustl - Arthur Schnitzler Juventude - Joseph Conrad O mendigo e a donzela orgulhosa - Rainer Maria Rilke Um natal - Truman Capote Rinoceronte e Cortadillo - Miguel de Cervantes Belfagor, o Arquidiabo - Nicolau Maquiavel A matrona de Éfeso - Petrônio A greve - Jack London Barba-azul - Charles Perrault A loba - Giovanni Verga Amor e pedagogia - Miguel de Unamuno A vênus de Ille - Prosper Merimée Amor e psiquê - Apuleio A raposa e as uvas - Esopo O aumento - Dino Buzzati Corcunda recalcitrante - Anônimo Rip Van Winkle - Washington Irving Um dia perfeito para peixes-banana - J.

Salinger O dente quebrado - Pedro Emilio Coll O cair da noite - Isaac Asimov. Thorondir , 27 Fev Vendo este tópico me dou conta de como leio poucos contos, preciso melhorar isso Todos acorreram para saber, mas ela no disse nada; e como o conde insistia, respondeu com muita dignidade: No, isso no lhe diz respeito. No posso falar. Sentaram-se ento em torno de uma grande sopeira que exalava um perfume de couve. Apesar daquele susto, o jantar foi divertido. A sidra era boa, o casal Loiseau e as freiras beberam dela, por economia.

Os outros pediram vinho. Cornudet pediu cerveja. Ele tinha um jeito especial de abrir a garrafa, de fazer espuma ao servir, de examin-la inclinando o copo, que em seguida erguia contra a luz para avaliar bem a cor. Quando bebia, sua longa barba que conservava o mesmo matiz da bebida adorada parecia estremecer de ternura; seus olhos tornavam-se vesgos no esforo de no perder de vista o chope, e naquele instante ele dava a impresso de estar cumprindo a nica funo para a qual tinha nascido.

Dir-seia que criava em seu esprito uma aproximao e uma espcie de afinidade entre as duas grandes paixes que ocupavam toda a sua vida; a Cerveja e a Revoluo; e certamente no podia degustar uma sem pensar na outra. Follenvie jantavam bem na ponta da mesa.

O homem, arquejando como uma locomotiva estropiada, tinha demasiada dificuldade no peito para poder falar enquanto comia; mas a mulher no se calava nunca. Contou todas as suas impresses da chegada dos prussianos, o que faziam, o que diziam, execrando-lhes, primeiro porque custavam-lhe dinheiro, e depois porque tinha dois filhos no Exrcito.

Dirigia-se principalmente condessa, lisonjeada por conversar com uma dama daquele naipe. Depois baixava a voz para falar as coisas mais delicadas, e de vez em quando seu marido a interrompia: Seria melhor se se calasse, madame Follenvie. Mas ela no dava a mnima importncia e continuava:.

E no v pensar que so limpos! Ah, no! Fazem porcaria por todos os cantos, desculpe o termo, mas isso mesmo. E se a senhora os visse fazer o exerccio deles, durante horas e horas, todos os dias; ficam todos ali, num campo: e anda para frente, e anda para trs, e vira para l, e vira para c.

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Se pelo menos cultivassem a terra ou se trabalhassem nas estradas l do pas deles! Mas no, madame, essa soldadesca a, isso ningum aproveita!

E o pobre do povo ainda tem que aliment-los. Para qu? Para que no apreendam outra coisa? S sabem massacrar! No passo de uma velha sem educao, concordo, mas quando vejo como estragam a sade a patear da manh noite, penso c comigo: Quando h gente que faz tanta descoberta que pode ser til, tem que ter esses outros que se esforam tanto para ser maus!

Francamente, no uma abominao isso de matar as pessoas? Que seja prussiano, ou ingls, ou ento polons, ou Francs? Se a gente se vinga de algum que nos prejudicou, ruim, pois nos condenam; mas quando exterminam nosso filhos a tiro de fuzil como se fossem perdizes, a ento bom?

Sim, pois do-se condecoraes ao que mais liquida! No, veja bem, madame, nunca vou entender isso! Cornudet levantou a voz:. A guerra uma barbrie quando se ataca um vizinho pacfico; um dever sagrado quando se defende a ptria.

A velha mulher baixou a cabea:. Sim, quando a gente se defende, outra coisa; mas, antes, no seria melhor matar todos os reis que fazem isso por puro prazer?

O olhar de Cornudet se inflamou:. Bravo, cidad! Carr Lamadon refletia profundamente. Embora fosse fantico pelos ilustres capites, o bom senso daquela camponesa o fazia pensar na fartura que traria a um pas tamanha quantidade de braos desocupados, e conseqentemente ruinosos, se toda aquela fora que se mantinha improdutiva fosse empregada nas grandes obras industriais que precisaro de sculos para ser feitas.

Mas Loiseau, deixando o seu lugar, foi conversar em voz baixa com o albergueiro. O gordo ria, tossia, cuspia; a enorme barriga pulava de alegria ao ouviras piadas do vizinho, e comprou-lhe seis barricas de Bordeaux para a primavera, quando os prussianos j teriam partido. Mal terminada a ceia, como estavam mortos de cansao, foram se deitar.

No entanto Loiseau, que tinha prestado ateno s coisas, deixou a esposa na cama e colou, ora ouvido, ora o olho, no buraco da fechadura, tratando de descobrir o que ele chamava de os mistrios do corredor. Ao cabo de mais ou menos uma hora, ouviu uma espcie de frufru, olhou depressa e percebeu Bola de Sebo, que parecia ainda mais cheia sob um penhoar de casimira azul bordado com rendas brancas. Trazia um castial na mo e se dirigia ao nmero redondo do fundo do corredor.

Mas uma porta ao lado se entreabriu, e quando ela voltou, aps alguns minutos. Cornudet, de suspensrios, a seguia. Falavam baixo, e em seguida estacaram. Bola de Sebo parecia proteger a entrada de seu quarto com energia. Loiseau, infelizmente, no escutava as palavras, mas no fim, como levantavam a voz, ele pde pescar algumas. Cornudet insistia com veemncia. No, meu caro, tem momentos em que no se pode fazer essas coisas; e alm disso, aqui, seria uma vergonha. Ele no entendia, sem dvida, e perguntou o porqu.

Ento ela se exaltou, elevando ainda mais o tom:. Por qu? Voc no entende por qu? Quando h prussianos por toda a casa, talvez at no quarto ao lado? Ele se calou. Aquele pudor patritico de marafona que no se deixava acariciar perto do inimigo deve ter despertado em seu corao a dignidade enfraquecida, pois, depois de lhe ter dado apenas um beijo, voltou para o quarto na ponta dos ps.

Loiseau, bem aceso, deixou a fechadura, deu salto batendo os dois calcanhares no ar, enfiou sua touca, ergueu o cobertor sob o qual jazia a dura carcaa de sua companheira, que ele acordou com um beijo, murmurando: Voc me ama. Ento a casa inteira se tornou silenciosa. Mas em seguida, em algum lugar indeterminado que podia ser tanto a cave quanto o sto, ergueu-se um ronco poderoso, regular, montono, um rudo surdo e prolongado, com estremecimentos de caldeira sob presso.

Follenvie dormia. Como haviam decidido que partiriam no dia seguinte s oito horas, todo mundo se encontrou na cozinha; mas o carro, cujo toldo tinha uma camada de neve, erguia-se solitrio no meio do ptio, sem cavalos e sem condutor. Procuraram em vo este ultimo nas estrebarias, nas forragens, nas cocheiras. Ento os homens se decidiram por fazer uma busca nas redondezas e saram. Viram-se na praa, com a igreja ao fundo e, dos dois lados, uma srie de casa baixas onde se percebiam soldados prussianos.

O primeiro que enxergaram descascava batatas. O segundo, mais afastado, lavava o salo do barbeiro. Um outro, barbudo at os olhos, beijava um fedelho que chorava e o embalava no colo, tentando acalm-lo; e as gordas camponesas cujos homens estavam no exrcito da guerra indicavam por meio de sinais aos vencedores obedientes o trabalho que era preciso fazer: cortar lenha, engrossar a sopa, moer o caf; um deles at lavava a roupa de sua hospedeira, uma vov aleijada.

Surpreso, o conde interrogou o sacristo que saa do presbitrio. O velho rato de igreja respondeu: Oh! Esses a no so maus; no so prussianos, pelo que se diz. So de mais longe, no sei muito bem de onde; e todos deixaram mulher e filhos em seus pas; essa guerra no nem um pouco engraada para eles!

Tenho certeza que l tambm o pessoal se queixa; e isso vai trazer uma bela duma misria tanto para eles quanto para ns. Aqui, ainda no somos muito desgraados, por enquanto. Porque eles no fazem mal nenhum e trabalham como se estivessem em suas casas. Veja bem, senhor, entre gente pobre preciso se ajudar uns aos outros So os grandes que fazem a guerra.

Cornudet, indignado com o entendimento cordial estabelecido entre vencedores e vencidos, retirou-se, preferindo se encerrar ao albergue. Loiseau soltou um gracejo; Eles repovoam. Carr Lamadon disse srio:eles compensam. Mas no se encontrava o cocheiro. No fim, descobriram-no no caf do vilarejo, fraternalmente abancado com o ordenana do oficial.

O conde o interpelou:. No tnhamos lhe dado ordem de atrelar os cavalos para as oito horas? Ah, sim, isso mesmo, mas depois me deram uma outra. De no atrelar nem para as oito nem para hora nenhuma. Quem lhe deu essa ordem? O comandante prussiano, ora bolas. Sei l. V perguntar a ele. Me probem de atrelar, eu no atrelo.

E estamos conversados. Foi ele mesmo, em pessoa, quem lhe deu essa ordem? No senhor, foi o albergueiro que me mandou, da parte dele.

Ontem de noite, quando ia me deitar. Os trs homens se retiraram, bastantes preocupados. Perguntaram pelo Sr. Follenvie, mas a empregada respondeu que o senhor, por causa da asma, nunca se levantava antes das dez. E havia at proibido formalmente de acordarem-no, exceto com caso de incndio. Quiseram ver o oficial, mas era absolutamente impossvel, embora estivesse alojado no albergue.

Apenas o Sr. Follenvie tinha autorizao para falar-lhe a respeito dos assuntos civis. Ento esperaram. As mulheres subiram aos quartos e se distraram com futilidades. Cornudet se instalou junto grande lareira da cozinha, onde ardia um fogo intenso. Mandou trazer uma das mesinhas de caf, uma caneca de cerveja e puxou seu cachimbo, que entre os democratas gozava de uma considerao quase igual sua, como se servisse ptria ao servir a Cornudet. Era um magnfico cachimbo de magnesita, admiravelmente curado, to negro quanto os dentes do dono, mas perfumado, recurvo, luzente, acostumado a sua mo, completando-lhe a fisionomia.

E permaneceu imvel, os olhos fixos ora na chama do fogo, ora na espuma que coroava a cerveja; e a cada gole que bebia passava com ar satisfeito os longos dedos magros pelo longo cabelo engordurado, enquanto aspirava o bigode franjado de espuma. Loiseau, sob o pretexto de desentorpecer as pernas, foi vender seu vinho aos bodegueiros da regio. O conde e o empresrio puseram-se a falar de poltica. Previam o futuro da Frana. Um acreditava nos Orlans, o outro num salvador desconhecido, um heri que se revelaria quando toda esperana estivesse perdida: um Du Guesclin, uma Joana dArc, talvez?

Ou outro Napoleo I? Se o prncipe imperial no fosse to jovem! Cornudet, escutando-os, sorria como o homem que conhece o segredo dos destinos. Seu cachimbo perfumava a cozinha. Quando batiam dez horas, o Sr. Follenvie apareceu. Interrogaram-no depressa, mas s o que ele fez foi repetir duas ou trs vezes, sem variantes, estas palavras: O oficial me disse assim: Senhor Follenvie, o senhor vai proibir que atrelem os cavalos diligncia desses viajantes.

No quero que eles partam sem minha ordem. O senhor entendeu? Ento quiseram falar com o oficial. O conde enviou-lhe o seu carto, onde o Sr. Carr Lamadon acrescentou seu nome e todos os seus ttulos. O prussiano mandou dizer que receberia os dois homens depois que tivesse almoado, ou seja, perto da uma da tarde. As senhoras reapareceram e comeu-se um pouco, apesar da preocupao. Bola de Sebo parecia doente e assombrosamente perturbada.

Terminavam o caf quando o ordenana veio buscar os dois senhores. Loiseau juntou-se a eles; tentavam arrastar Cornudet, para dar mais solenidade imprecao, mas este declarou orgulhosamente que no consentia ter jamais nenhum tipo de relao com os alemes; e voltou para sua lareira, pedindo outra caneca.

Os trs homens subiram e foram introduzidos no quarto mais bonito do albergue, onde o oficial os recebeu espichado numa poltrona, os ps junto ao fogo, fumando um longo cachimbo de porcelana e enrolado num roupo flamejante, sem dvida tomado da casa abandonada de algum burgus de mau gosto. No se levantou, no os cumprimentou, no os mirou. Oferecia um magnfico mostrurio da grosseria natural do militar vitorioso. Ao cabo de alguns instantes, disse enfim:.

Eu poderia lhe perguntar o motivo dessa recusa? Porque eu non querro. Gostaria de lhe fazer respeitosamente observar, senhor, que o seu comandante em chefe nos concedeu uma permisso para ir at Dieppe; e no penso que tenhamos feito nada para merecer seus rigores.

Eu non querro Focs potem tescer. Os trs se inclinaram e se retiraram. A tarde foi lamentvel. No entendiam nada daquele capricho do alemo; e as idias mais esquisitas atormentavam as mentes. Todo mundo se deteve pela cozinha, e discutiam sem parar, imaginando coisas inverossmeis. Queriam, talvez, mant-los como refns? Mas com qual objetivo?

Ou lev-los como prisioneiros? Os mais ricos eram os mais apavorados, vendo-se j obrigados, para resgatar suas vidas, a derramar sacos cheios de ouro nas mos daquele soldado insolente. Esgaravataram o crebro para descobrir mentiras aceitveis, dissimular suas riquezas, fazerem-se passar por pobres, muito pobres.

Loiseau retirou a corrente do relgio e meteu-a no bolso. A noite que caa aumentou a apreenso. O candeeiro foi aceso, e como havia ainda duas horas antes do jantar, a Sra. Loiseau props uma partida de trinta e um. Seria uma distrao. A proposta foi aceita. O prprio Cornudet, que apagara o cachimbo por cortesia, tomou parte no jogo. O conde baralhou e deu as cartas. Bola de Sebo fez um trinta e um na primeira mo, e logo o interesse pela partida amenizou o temor que perseguia os espritos.

E Cornudet percebeu que o casal Loiseau conchavava para trapacear. Quando iam passar mesa, o Sr. Follenvie reapareceu e com sua voz pigarrenta pronunciou: O oficial prussiano manda perguntar senhorita lisabeth Rousset se ela ainda no mudou de idia. Bola de Sebo permaneceu em p, inteiramente plida; depois, tornando-se de sbito muito vermelha, teve um tal acesso de fria que no conseguia falar. Por fim, explodiu: O senhor vai dizer a esse crpula, a esse porco, a esse prussiano nojento, que nunca vou querer, o senhor entendeu bem?

Nunca, nunca, nunca!. O gordo albergueiro saiu. Ento Bola de Sebo foi cercada, interrogada, solicitada por todo mundo: que revelasse o mistrio de sua conversa. Primeiro ela resistiu, mas a exasperao logo a venceu: O que ele quer?

O que ele quer? Ele quer dormir comigo! Ningum se escandalizou com a palavra, to viva foi a indignao. Cornudet quebrou seu copo ao pous-lo violentamente sobre a mesa.

Era um clamor de reprovao quele mercenrio vil, um sopro de clera, uma unio de todos para a resistncia, como se tivessem pedido a cada um deles uma parte do sacrifcio exigido dela. O conde declarou com repulsa que esse tipo de gente se comportava maneira dos antigos brbaros. As mulheres, principalmente, manifestaram uma comiserao enrgica e carinhosa com Bola de Sebo. As freiras, que apareciam apenas hora das refeies, baixaram a cabea e nada disseram.

Jantou-se, contudo, quando o furor inicial foi amenizado; mas falou-se pouco. As senhoras se retiraram cedo; e os homens, enquanto fumava, organizaram um carteio ao qual foi convidado o Sr. Pretendiam habilmente interrog-lo sobre os meios a empregar para vencer a resistncia do oficial. Mas ele s pensava nas cartas, sem escutar nada, em responder nada; e repetia sem parar: Ao jogo, senhores, ao jogo!. Sua concentrao era tamanha, que at se esquecia de cuspir, o que lhe produzia por vezes uma nota em suspenso na msica do seu peito.

Seus pulmes sibilantes apresentavam toda a gama da asma, desde as notas mais graves e profundas at a rouquido aguda dos frangotes aprendendo a cantar. Recusou-se a subir mesmo quando sua mulher, caindo de sono, veio busc-lo. Ela foi sozinha, pois era da manh, levantando sempre com o sol, enquanto seu homem era da noite, sempre pronto a virar a madrugada com os amigos.

Ele gritou para ela: Pe a minha gemada perto do fogo, e voltou ao jogo. Quando os outros viram que dali no conseguiriam tirar nada, disseram que estava na hora e cada qual se dirigiu para sua cama. No dia seguinte, mais uma vez se levantaram cedo,com uma vaga esperana, um desejo maior de ir embora, um terror do dia que teriam de passar naquele horrvel e miservel albergue. Ai, ai! Os cavalos continuavam na estrebaria, o cocheiro permanecia invisvel.

Por falta do que fazer, foram rodar em torno do veculo. O almoo foi muito triste, e se havia criado uma espcie de frieza em relao a Bola de Sebo, pois a noite, que boa conselheira, modificara um pouco os juzos.

Agora, quase a queriam mal por no ter ido encontrar o prussiano em segredo, a fim de arranjar, ao amanhecer, uma boa surpresa aos companheiros. O que de mais simples? Quem, alis, ia ficar sabendo? Ela poderia ter salvo as aparncias mandando dizer ao oficial que ficara com pena da desgraa dos outros.

Para ela, aquilo tinha to pouca importncia! Mas ningum ainda confessava tais pensamentos. Cada qual se agasalhou com cuidado e o pequeno grupo partiu, exceto Cornudet, que preferia ficar junto ao fogo, e as freiras, que passavam seus dias na igreja ou na residncia do vigrio. O frio, cada dia mais intenso, castigava cruelmente nariz e orelhas; os ps se tornavam to doloridos que cada passo era um suplcio; e quando o campo se abriu frente deles e revelou-se to aterradoramente lgubre sob aquela brancura infinita, de imediato todo mundo retornou, a alma gelada e o corao apertado.

As quatro mulheres iam na frente; os trs homens seguiam um pouco atrs. Loiseau, que entendia a situao, perguntou de sbito se aquela vagabunda ia obrig-los a ficar ainda por muito tempo num lugar como aquele.

O conde, sempre polido, disse que no se podia exigir de uma mulher um sacrifcio to penoso, e que aquilo deveria vir dela mesma. Carr Lamadon observou que se os franceses fizessem, como era de esperar, uma contra ofensiva por Dieppe, o encontro entre as tropas se daria obrigatoriamente em Ttes.

Tal reflexo deixou os outros dois preocupados. Se fugssemos a p? O conde deu de ombros; O senhor pensa mesmo nisso, nessa neve? Com nossas mulheres? E depois seramos logo perseguidos, alcanados em dez minutos e trazidos como prisioneiros merc dos soldados. Era verdade; calaram-se. As senhoras falavam de roupas, mas um certo constrangimento parecia desuni-las.

De repente, no fim da rua, o oficial surgiu. Sobre a neve que fechava o horizonte, ele perfilava sua cintura de vespa em uniforme, e avanava, os joelhos afastados, naquele movimento prprio dos militares que se esforam para no sujar as botas cuidadosamente engraxadas. Inclinou-se ao passar perto das senhoras e olhou desdenhosamente para os homens, que tiveram, de resto, a dignidade de no erguer o chapu, embora Loiseau tivesse ensaiado o gesto.

Bola de Sebo ficara vermelha at as orelhas, e as trs mulheres casadas sentiam uma grande humilhao de ser encontradas assim por aquele militar, na companhia daquela garota que ele tratara de maneira to indecorosa.

Ento falaram dele, de seu porte, de seu rosto. Carr Lamadon, que conehcera muitos oficiais e que os julgava com conhecimento de causa, achava que aquele ali era bem bom; at lamentava que no fosse Frances, porque daria um belo hussardo, por quem todas as mulheres decerto enlouqueceriam. Uma vez de volta ao albergue, no sabiam mais o que fazer. Palavras azedas, inclusive, foram trocadas a propsito de coisas insignificantes. O jantar, silencioso, durou pouco tempo, e cada um subiu para o seu quarto, esperando dormir para matar o tempo.

No dia seguinte desceram com rostos casados e coraes exasperados. As mulheres mal falavam com Bola de Sebo. Um sino repicou. Era para um batizado. A gorducha tinha um filho criado por uns camponeses de Yvetot. No via nem mesmo uma vez por ano, e nunca lembrava dele; mas o pensamento naquele que em seguida iam batizar lanou-lhe na alma uma sbita e violenta ternura pelo seu, e ela quis absolutamente assistir cerimnia.

Assim que partiu, todo mundo se olhou, depois aproximaram as cadeiras, pois sentiam muito bem que era preciso decidir alguma coisa. Loiseau teve uma idia: era da opinio de propor ao oficial que ficasse com Bola de Sebo e deixasse partir os outros. De novo o Sr. Follenvie se encarregou de fazer a comisso, mas desceu quase imediatamente. O alemo, que conhecia a natureza humana, colocara-o porta afora.

Pretendia reter todo mundo enquanto seu desejo no fosse satisfeito. Ento o carter chulo da Sra. Loiseau explodiu; Mas no vamos morrer de velhice aqui. J que a profisso dela, dessa rameira, de fazer isso com todos os homens, ento acho que ela tem o direito de recusar um e no recusar outro.

Pensem um pouco, essa a pegou tudo o que encontrou em Rouen, at os cocheiros!

Sim, senhora, o cocheiro da prefeitura! Seu muito bem, ele compra o vinhozinho dela l na loja. E agora, que se trata de nos livrar de uma boa, ela se faz de presumida, essa lambisgoia! Acho que ele faz muito bem, esse oficial. Anda privado talvez h muito tempo; e sem dvida que ele teria preferido a ns trs.

Mas no, ele se contenta com aquela que de todo mundo. Respeita as mulheres casadas. Pensem bem, ele o chefe.

Bastava dizer: Eu quero, e podia nos pegar fora com seus soldados. As outras duas sentiram um pequeno arrepio. Os olhos da bela Sra. Carr Lamadon piscaram, e estava um pouco plida, como se sentindo j pega fora pelo oficial. Os homens, que discutiam parte, aproximaram-se.

Furioso, Loiseau queria entregar aquela miservel, ps e mos atados, ao inimigo. Mas o onde, filho de trs geraes de embaixadores e dotado de um fsico de diplomata, era partidrio da habilidade: Seria preciso convenc-la, disse. Ento conspiraram. As mulheres se juntaram, o tom de voz baixou e a discusso se generalizou, cada uma dando sua opinio. O que de resto era bastante conveniente. As senhoras, sobretudo, encontravam certas delicadezas de frmulas, expresses encantadoras e cheias de sutilidade para dizer as coisas mais escabrosas.

Mas como a leve camada de pudor com a qual se cobre toda a mulher de sociedade resguarda apenas a superfcie, elas se deleitavam naquela aventura brejeira. No fundo, divertiam-se loucamente, sentindo-se em suas essncias, especulando sobre o amor com a sensualidade de um cozinheiro gluto que prepara a ceia para outro.

DE BOLA BAIXAR SEBO CONTO

A alegria voltava por si mesma, to engraada lhes parecia histria no fim das contas. O conde arriscou brincadeiras um pouco ousadas, mas to bem ditas que provocavam sorrisos. Por sua vez, Loiseau soltou algumas piadas mais fortes, que no chocaram ningum; e o pensamento expresso rudemente por sua mulher dominava todos os espritos: J que era a profisso dela, daquela moa, por que recusaria mais aquele do que o outro?. A gentil Sra. Carr Lamadon parecia mesmo pensar que no seu lugar recusaria menos aquele do que o outro.

Prepararam o cerco longamente, como se visassem uma fortaleza. Cada qual decidiu sobre que papel desempenharia, argumentos nos quais se apoiaria, manobras que deveria executar. Acertaram o plano de ataque, os estratagemas a empregar e as surpresas do assalto, para forar aquela cidadela viva a receber o inimigo. Cornudet, no entanto, permanecia parte, completamente alheio ao caso.

Estavam tomados por uma concentrao to profunda que no ouviram Bola de Sebo voltar. Mas o conde assoviou um ligeiro Pssst que fez todos os olhos se erguerem.

BOLA BAIXAR DE SEBO CONTO

Ela estava ali. Calaram-se bruscamente, e de inicio um certo embarao impediu que lhe falassem.